A Bíblia é a regra de fé e prática, e autoridade absoluta, mas há outras fontes de autoridade válidas para basearmos nossa fé?
- Vitor Alex Batista Moreira

- 13 de ago.
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Atualizado: há 7 dias

Quando nos deparamos com a revelação divina acerca de Cristo e assumimos sermos cristãos, evangélicos e protestantes, nos perguntamos como podemos saber o que é certo e errado em exercer a nossa fé. Em outras palavras, em que podemos, e devemos, basear a nossa fé e prática? Existem tipos de autoridade religiosa, internas e externas, e é acerca disso que iremos tratar neste artigo.
Autoridades externas
São fontes de autoridade achadas fora do indivíduo, ou seja, origens autorizadas à sua volta. São, frequentemente, classificadas como canônicas, teológicas e eclesiásticas.
Autoridade canônica
Diz-se a respeito da canonicidade das Escrituras, reconhecidas como revelação autorizada de Deus. É composta pelos 66 livros, sendo 39 no Antigo Testamento e 27 do Novo Testamento. A canonicidade do Antigo Testamento foi, usualmente, reconhecida em um suposto Concílio de Jâmnia (entre 90 e 100 d.C.), mas que levanta discussões no meio acadêmico quanto a sua responsabilidade na canonização do Antigo Testamento. Há uma lista mais antiga, sobrevivente, ao qual foi compilada por Melito de Sardes, (bispo do século II) de cerca de 170 d.C. O cânon foi sendo gradativamente construído ao longo dos anos. A canonicidade completa do Novo Testamento, que se tem registro, foi feita por Atanásio, pela primeira vez, em 367 d.C., contudo foi oficialmente reconhecida no Terceiro Concílio em Cartago, em 397 d.C.
A Bíblia possui autoridade, máxima, pois é compreendida por ser de autoria divina, embora tenham sido homens que a escreveram. Isso porque esses homens que a escreveram foram inspirados por Deus. E a Bíblia fala com clareza a respeito das verdades básicas que apresenta.
A nossa fé e conduta deve estar baseada nas Escrituras. Nossa crença teológica deve ter apoio bíblico explícito (literal e objetivo) e implícito (construído). Fora disso deve ser repudiado.
"Uma consideração importante aos proponentes do conceito canônico é que a Bíblia deve ser interpretada corretamente. Esse é o problema que o conceito canônico da autoridade tem diante de si, e só com muito cuidado é que se pode lidar com ele." Teologia Sistemática - Uma perspectiva pentecostal, de Stanley M. Horton
¹⁶Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção e para a instrução na justiça, ¹⁷para que o homem de Deus seja apto e plenamente preparado para toda boa obra. 2 Timóteo 3:16
Autoridade teológica

São confissões doutrinárias, ou credos, formulados pela comunidade cristã ao longo da história. Essas declarações são baseadas nos estudos das Escrituras. Um dos principais e mais antigos é o Credo dos Apóstolos, um conjunto, resumido, dos "ensinamentos do colégio apostólico formado por Cristo", conforme James H. Railey, Jr e Benny C. Aker. Essas bases doutrinárias elevam o foco das pessoas para os elementos principais da fé que professam.
Esses credos doutrinários somente podem ter algum valor à medida que concordam com a Bíblia, pois apenas através das Escrituras é que se pode explicar suas verdades. Existem credos que nada concordam com as Escrituras, e quando negam os princípios fundamentais da fé cristã, esses consideramos hereges, pois visam a superar a posição central ocupada pela revelação bíblica.
Talvez dois teólogos muito conhecidos, e muito comentados por suas ideias, que podemos usar como exemplo, são eles: João Calvino e Jacó Arminio. Ambos divergem em doutrinas, mas, embora possuam doutrinas diferentes, ainda assim possuem base bíblica para suas argumentações, como por exemplo, em relação à soteriologia, especialmente quanto à eleição, graça e liberdade humana. Ambos fundamentam suas ideias nas Escrituras para fundamentar suas posições, demonstrando que há uma importância em analisar os textos bíblicos de maneira coerente.
"Têm valor somente à medida que concordam com a Bíblia e servem para explicar suas verdades." Teologia Sistemática - Uma perspectiva pentecostal, de Stanley M. Horton
Autoridade eclesiástica
O conceito deste tipo de autoridade sustenta que a Igreja é autoridade última em todas as questões de fé e prática, contudo, usualmente, estando em conjunto com os conceitos mencionados acima. Há alguns pontos de atenção quanto esta fonte de autoridade, pois comumente, alega-se, que a Bíblia deve ser interpretada por um indivíduo, ou um grupo, que recebe formação especifica para realizar esta tarefa e a doutrina estabelecida se torna como a única autorizada. Esse indivíduo, ou grupo, entende que seu relacionamento com Deus é o suficiente comunicar à Igreja, excluindo a necessidade dos demais fiéis conferirem por conta própria as alegadas interpretações. Por vezes, este tipo de autoridade, está sujeito a se tornar corrupta, quando anseia por vantagens pessoais ou outros desejos pecaminosos.
"Por ocupar em posições de liderança na comunidade pressupõe que seu relacionamento com Deus seja mais que suficiente para comunicar sua verdade à igreja. Sem desmerecer as posições de liderança estabelecidas por Deus, devemos observar que essa abordagem torna-se passível de corrupção, o abuso do poder visando vantagens pessoais ou outros desejos pecaminosos." Teologia Sistemática - Uma perspectiva pentecostal, de Stanley M. Horton
Autoridades internas

São fontes de autoridade achadas dentro do indivíduo. A partir de suas experiências com Deus, e através da sua razão humana, chegam a alguma conclusão, tendo em vista, também, as autoridades externas, mencionadas anteriormente.
Autoridade experiencial
Cada um possui um relacionamento íntimo com o criador e através da mente, da vontade e das emoções, é capaz de produzir alguma experiência com o criador. Os efeitos sofridos em um desses três âmbitos são sentidos ou experimentados nos demais, subsequentemente ou simultaneamente. Entretanto, há quem considere que a experiência, como autoridade, é a fonte originária e real da autoridade no tocante à fé e à prática, como Friedrich Schleiermacher 1768-1834. Embora Schleiermacher e seus seguidores coloquem as experiências acima da Bíblia, por considerarem um livro humano, não podemos esquecer do valor que as experiências têm em receber a revelação divina. Os pentecostais, por exemplo, são movidos por um forte relacionamento e experiências com Deus, entretanto, ganham força, apenas, quando confirmadas e ilustradas na experiência que os discípulos devotos de Cristo tiveram. Não é digna de fidelidade a experiência isolada, precisa ser experimentada por mais pessoas, e que se ergue como fonte de autoridade para mediar a revelação de Deus.
"Uma fonte fidedigna de autoridade deve estar além dos aspectos variáveis que marcam a experiência, deve até mesmo ter a competência para contradizer e corrigir a experiência, se necessário for." Teologia Sistemática - Uma perspectiva pentecostal, de Stanley M. Horton
Autoridade racional (razão humana)
O Iluminismo foi um movimento entre os séculos XVII e XVIII que se acreditava que a razão humana é a fonte autossuficiente de autoridade. Este movimento racionalista nega a necessidade da revelação divina. Entretanto, a capacidade de racionar é, uma das características, que demonstra que somos criados à imagem e semelhança de Deus. Por isso não há erro quando usamos a razão para acolher a revelação divina. Podemos usar a razão, quanto ao conhecimento bíblico, para pesquisar textos e documentos antigos, averiguar achados arqueológicos, analisar determinados períodos bíblicos para entender os aspectos econômicos e sociais, entre outras coisas. A racionalidade nesse aspecto é útil para compreender a revelação divina, mas não tem superioridade sobre ela. A razão humana, quando está acima da revelação divina, julga o que deve ou não ser aceito, e quando a nega está sob influência do pecado e de Satanás, conforme o que ocorreu desde a queda em Gênesis 3, onde a Antiga Serpente distorceu a verdade de Deus para criar uma semi-verdade.
¹⁵Antes, santifiquem Cristo como Senhor em seu coração. Estejam sempre preparados para responder a qualquer pessoa que pedir a razão da esperança que há em vocês. 1 Pedro 3:15
A autoridade absoluta é a Bíblia

A Bíblia é autoridade máxima. Ela é palavra de Deus revelada a nós. A Confissão de Fé de Westminster, em 1646, definiu a Bíblia como a única regra de fé e prática. Todas as demais fontes de autoridade são válidas, contudo, devem estar de acordo com os padrões de fé e prática estabelecidos nas Escrituras. A teologia é uma excelente ferramenta para sistematizar os assuntos contidos nas Escrituras, não esquecendo do poder, experimental, que o Espírito Santo possui nos iluminando no conhecimento da Palavra de Deus. Os credos e doutrinas encontrados nas Igrejas são ferramentas, também, que nos ajudam nessa tarefa de compreender as Escrituras e a razão humana ajuda nessa tarefa. Acima de tudo, lembremos, que na Bíblia Deus falou e continua falando.
¹²Pois a palavra de Deus é viva e eficaz, e mais afiada que qualquer espada de dois gumes; ela penetra até o ponto de dividir alma e espírito, juntas e medulas, e julga os pensamentos e as intenções do coração. Hebreus 4:12
³Feliz aquele que lê as palavras desta profecia e felizes aqueles que ouvem e guardam o que nela está escrito, porque o tempo está próximo. Apocalipse 1:3
Fontes de consulta
BÍBLIA. Português. Bíblia Leitura Perfeita (Jesus Copy). Tradução Nova Versão Internacional (NVI) - 1. ed. (2011) - Rio de Janeiro - RJ: Thomas Nelson Brasil, 2018.
M. Horton, Stanley. Teologia Sistemática - Uma perspectiva pentecostal. 33ᵃ impressão (2026) - Rio de Janeiro - RJ - CPAD (Casa Publicadora das Assembleias de Deus). Capítulo 2, Fundamentos Teológicos, por James H. Railey, Jr e Benny C. Aker. Páginas 46 a 50 (Tipos de Autoridade Religiosa)
M. Horton, Stanley. Teologia Sistemática - Uma perspectiva pentecostal. 33ᵃ impressão (2026) - Rio de Janeiro - RJ - CPAD (Casa Publicadora das Assembleias de Deus). Capítulo 3, A palavra inspirada de Deus, por John R. Higgins. Página 114 (O Cânon das Escrituras).

Vitor Alex Batista Moreira
👨🏫 Professor de teologia no Seminário Bíblico William Seymour
🎓 Teologia básica (Seminário Bíblico William Seymour), CST em Logística e Comércio Exterior (Cruzeiro do Sul Virtual), Técnico de Redes de Computadores (SENAI), Inglês Intermediário II (CNA) e Auxiliar de Importação (FATEC)
⛪ Membro na Assembléia de Deus Vida Nova da Frei Gaspar (São Vicente - SP) e na IDPB El-Shadai (Lorena - SP)
